21 janeiro 2008

Frases do que ando lendo

Em uma noite consegui ler o último livro do Cormac McCarthy, A Estrada. A história se passa num EUA pós apocalíptico, onde existem poucos seres humanos vivos, pouca ou nenhuma comida e não há qualquer animal vivo. Os poucos seres humanos vivos se dividem em dois grupos, os que se organizam em e vão em busca de comida (canibalismo). Os outros são de pessoas que sabem ser impossível viver por muito tempo, mas tentam prolongar o que podem suas vidas, vivem em constante medo dos canibalistas e andando em busca de comida. O autor não explica o que ocorreu para esse "fim de mundo", os dias não possuem muita claridade, pois o sol está sempre encoberto, e as noites são de um breu total, uma escuridão que torna impossível ver nada a frente, até mesmo o mar perdeu sua cor. Um pai e seu filho são os personagens do livro, eles não possuem um nome, nomes são irrelevantes. Tudo que eles querem é ir para o sul. Possuem uma arma com apenas duas balas, uma para cada um no caso de suicídio. A morte talvez seja a figura que os acompanha ao longo da jornada. Algumas frases
"Amontoadas junto à parede estavam pessoas nuas, homens e mulheres, todos tentando se esconder, ocultando o rosto com as mãos. No colchão estava deitado um homem cujas pernas estavam faltando até a altura dos quadris e os cotos escuros e queimados. O cheiro era hediondo." (...)

"Eles vão matar aquelas pessoas, não vão?
Sim.
Por que eles precisam fazer isso?
Não sei.
Vão comer elas?
Não sei.
Vão comer elas, não vão?
Vão.
E a gente não podia ajudar porque eles iam comer a gente também.
Sim.
E é por isso que a gente não podia ajudar.
Sim.
Está bem."

"Voce só tem duas balas. Talvez uma só. E eles vão ouvir o tiro.
Eles vão sim. Mas Voce não.
Por que voce acha isso?
Porque as balas são mais rápidas do que o som. Ela vai estar no seu cérebro antes que voce possa ouvi-la. Para ouvi-la voce precisa de um lobo frontal e coisas com nomes como colígulo e giro temporal e voce não vai te-los mais. Vai ser tudo só uma sopa."

"Pegou a mão do menino e colocou o révolver nela. Pegue, ele sussurrou. Pegue. O menino estava aterrorizado. Colocou o braço em torno dele e o abraçou. O corpo tão magro. Não tenha medo, ele disse. Se eles te acharem voce vai ter que fazer isso. Está entendendo? Shh. Não chore. Está me ouvindo? Voce sabe como fazer. Coloca dentro da boca e aponta para cima. Faça rápido e com força. Está entendendo? Pare de chorar. Está entendendo?"

"Quando todos tiverem morrido pelo menos não haverá ninguém aqui além da morte e seus dias estarão contados também. Ela vai estar aqui na estrada sem nada para fazer e sem ninguém a quem fazer. Ela vai dizer `Para onde foi todo mundo?` E é assim que vai ser."

"Qual foi a coisa mais corajosa que voce já fez?
Ele cuspiu na estrada um catarro ensangüentado. Levantar hoje de manhã, falou."

"Voce gostaria de morrer?
Não. Mas talvez eu gostasse de ter morrido. Quando voce está vivo sempre tem isso à sua frente."

"Onde os homens não podem viver deuses também não se sentem bem."

"Passaram por um depósito de lixo de metal onde alguém em algum momento tinha tentado queimar corpos humanos. A carne e os ossos carbonizados sob as cinzas úmidas poderiam ser anonimos a não ser pelo formato dos cranios. Já não havia mais cheiro."

"Aquele havia sido o primeiro ser humano além do menino com quem ele falava em mais de um ano. Meu irmão pelo menos. Os cálculos traiçoeiros naqueles olhos frios e rápidos. Os dentes cinzentos e apodrecidos. Com carne humana grudada."

"As pessoas estavam sempre se preparando para o amanhã. Eu não acreditava nisso. O amanhã não estava se preparando para elas. Nem sabia que elas estavam ali."

"O momento é agora. Amaldiçoe deus e morra."

Um comentário:

Lillian disse...

Eu li recentemente um livro dele, o meridiano de sangue, que faz parte de uma trilogia. Fazendo uma comparação das frases que vc postou com as que li em meridiano de sangue, ainda assim acho meridiano mais forte e passagens cheias de sangue e dor. Este livro que vc citou deve ser realmente bom, assim como toda a obra do cormac mccarthy, como vc disse outro dia, um dos melhores escritores vivos e queridinho da oprah.